Meditação de 11 de Outubro de 2017
Pr. Roberto Verburg

Faz sentido recordar a Reforma?

“Vejam! Pelas montanhas vem um mensageiro

que traz boas notícias, notícias de paz.

Povo de Judá, faça as suas festas e ofereça a Deus

aquilo que você prometeu.”

Naum 1.15

 

Esse ano recordamos os 500 anos da Reforma Protestante. Em muitos lugares é dado atenção à comemoração da Reforma. Mas por que deveríamos realizá-la? Será que ainda faz sentido fazer isso?

 

Permitam-me começar respondendo a última pergunta. Está mais do que claro que as comemorações da Reforma contam com um público cada vez menor. Muitas vezes esses encontros são visitados por um público mais velho e os jovens contam com uma representatividade bem moderada. Isso é lamentável, porém isso ainda não é motivo para pararmos com esse tipo de celebração. A propósito, observa-se aqui uma tendência geral: há uma considerável baixa também nas participações dos cultos, estudos bíblicos, grupos de oração, palestras, encontro das mulheres, dia das igrejas, etc. Todavia, ainda existem muitos encontros onde há uma boa participação, especialmente se estes forem organizados por denominações cristãs diferentes.

Um argumento que, por vezes, é levantado contra a organização das comemorações da Reforma é a falta de unidade entre os descendentes da Reforma. Isso tem um certo fundamento. É realmente muito vergonhoso observar que entre os herdeiros da Reforma ocorreram tantos cismas e divisões. Ainda mais se considerarmos que o objetivo inicial dos reformadores, como Lutero e Calvino, era fazer uma reforma dentro da Igreja. Agora essas divisões todas não são motivo para pararmos de comemorar a Reforma. Isso porque não podemos culpar a Reforma pela falta de união que vivemos em nível de igrejas! A Reforma não é um movimento de separação, mas um movimento de renovação (uma volta às Escrituras Sagradas). Entretanto, a comemoração da Reforma nunca pode ter um caráter triunfalista. Comemorar a Reforma é também uma oportunidade para nos humilharmos diante de Deus por causa das divisões entre as igrejas. Sim, porque, por vezes, surge também em nós um ar de superioridade (ou, em alguns casos, de inferioridade) com relação a outras igrejas. Faz-se, portanto, necessário observar e confessar isso.

Quais seriam então os motivos para continuarmos recordando a Reforma Protestante? Eu destaco três:

 

  1. Recordar é uma palavra chave na Bíblia. Israel deveria manter vivos os grandes feitos de Deus em sua história, recordando-os constantemente. Na Páscoa era recordado como Deus libertou o povo de Israel do Egito. Sim, pois quem não recorda, esquece. E quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo. Justamente nessa época em que mais pessoas têm pouco senso histórico e mal conhecem o passado, é importante lembrar que há uma história antes de nós na qual a ação de Deus era visível. A Reforma foi um ato de Deus, um movimento que trouxe muita benção para a Europa e depois também aos outros continentes e que devolveu ao povo (a nós) a Palavra de Deus. Isso não pode ser esquecido nunca.
  2. As comemorações da Reforma são importantes, porque são momentos em que o conteúdo da Reforma é trazido à tona. Nós não recordamos por recordar, mas recordamos por causa do seu valioso conteúdo. Senão isso se tornaria nostalgia. A celebração da Reforma é um prato cheio para explicar a mensagem da Reforma: o significado da graça, da justiça por meio da fé, o sacerdócio de todos os cristãos, a liberdade cristã, etc. Ou seja, uma oportunidade para explicar a importância da Palavra de Deus para a nossa vida. E, de fato, esse era, segundo Lutero, o grande tesouro da igreja: “o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.” (tese 62).
  3. As celebrações da Reforma devem ser realizadas, porque nos dão a oportunidade de trabalhar de forma ecumênica. No texto acima eu havia dado atenção ao argumento de que, devido às divisões entre as igrejas, não seria conveniente celebrar a Reforma. Todavia, é possível inverter esse argumento. Penso que as divisões não são motivo para deixarmos de celebrar a Reforma, mas motivo para justamente estimularmos esses momentos de celebração. A Reforma por excelência nos faz relembrar o nosso passado em comum. As celebrações da Reforma são alavancas excelentes para começar novas iniciativas em conjunto com outras igrejas.

Resumindo, com base nos argumentos acima, considero que faz muito sentido recordarmos a Reforma, ainda mais neste ano em que celebramos os seus 500 anos. Ainda podemos acrescentar que essas celebrações também são uma oportunidade missionária. Onde as celebrações “normais” da reforma acabam sendo uma atividade da igreja local, a celebração dos 500 anos da Reforma certamente também atrairá pessoas de fora. Dessa maneira a história da igreja pode ser um veículo propagador do evangelho de Cristo.

Pr. Roberto Verburg