Meditação de 14 de Fevereiro de 2018
Pr. Roberto Verburg

Líquido

“Cada um cuide, não somente dos seus interesses,

mas também dos interesses dos outros.”

Filipenses 2.4

 

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman refere-se ao tempo atual como sendo líquido. Ele usa essa designação, porque os líquidos, diferentemente dos sólidos, facilmente perdem sua forma. Movem-se com facilidade. Não permanecem presos a formas reestabelecidas; pelo contrário, estão sempre propensos a mudanças. Os espaços são ocupados somente por um instante. A grande mobilidade dos ?uidos é o que os associa à ideia de leveza, ausência de peso e inconstância.

Há um efeito colateral lamentável que é provocado pela leveza e ?uidez do poder cada vez mais móvel, escorregadio, evasivo: é a desintegração da rede social e a derrocada das instituições de ações coletivas. Tanto a desintegração social, como a derrocada de instituições é uma condição e, também um resultado da nova técnica de poder, que necessita de pessoas desengajadas e individualistas. Para que o poder possa continuar ?uindo com liberdade, as pessoas devem estar desarticuladas. Uma rede densa de laços sociais é um obstáculo a ser eliminado.

A grande meta das pessoas na atualidade é emancipar-se, sentir-se livres. Experimentar uma vida sem obstáculos e resistências que impeçam os movimentos. Sentir-se livre é conseguir atingir o equilíbrio entre os desejos, a imaginação e a capacidade de agir. E quando a pessoa não consegue atingir tal equilíbrio, vem o sentimento de derrota, vazio e incapacidade. A necessidade de buscar a emancipação torna-se por si uma escravidão.

A igreja não está fora dessa realidade. Vemos que os laços de pertença, os vínculos das pessoas com a igreja são distantes e frágeis. Muitos buscam satisfazer as suas necessidades espirituais na igreja sem ter compromisso com a mesma e desprezando o coletivo. Por outro lado, a exortação do texto de Filipenses continua “buzinando em nossos ouvidos”. O que fazer com ela?

Bem ou mal, é nesse contexto que a comunidade cristã é exortada a viver a unidade e a humildade a exemplo de Cristo. É convidada, no poder de Cristo, a lançar suas redes e buscar criar vínculos seguros e duradouros. Mostrar que ela está aberta para acolher como Cristo acolheu, que ela está disposta a se doar como Cristo se doou.

            Desejamos assim que os 40 dias antes da Páscoa, subsequentes à quarta-feira de cinzas, possam ser um período oportuno para refletir sobre a nossa vida cristã e para investir no nosso crescimento espiritual, nos dedicando mais a oração, a leitura bíblica e a comunhão com os irmãos na fé.

RCV